Frases Sábias do Universo #32

Músico: o mendigo da Música

Músico é o mendigo da música.

Essa frase tão contundente vem sendo repetida com certa frequência por mim, que apesar de exercer diversas funções nessa vida, me considero, acima e antes de tudo, um músico (ainda que não pague minhas contas através dessa atividade). O motivo de tanta revolta(?) é um só: a verdade que a acidez desta frase representa.

A música é, disparadamente, a forma de arte que mais atrai as pessoas, que mais adeptos conquista e que mais artistas possui. Para cada cem músicos existem muito menos escritores, pintores, cineastas, dançarinos, atores e outros tipos de gente que se expressa e tenta viver através de sua arte. Estamos falando, então, de um mercado inchado, com muitos profissionais (ou nem tão profissionais assim) à disposição. As vendas de encordoamentos de guitarra superam, esmagadoramente, a venda de pincéis. Falo isso sem dados estatísticos que me salvaguardem, mas também sem nenhum medo de errar.

A música é, também, a forma de arte com maior apelo popular. Muito mais pessoas ouvem música do que vão à exposições ou a salas de cinema, menos ainda a saraus ou espetáculos de ballet. Existem muito mais consumidores de música do que de outras formas de expressão artística.

Pois bem.

Essa música que as pessoas consomem não é de graça. Pode até não ter custo para o consumidor, mas ela não surgiu sem que dinheiro fosse investido. Existe uma cadeia produtiva que envolve diversos profissionais e que sustenta o mercado de música.

Vamos fazer um breve levantamento de tudo que envolve a atividade de um músico:

Comprar o próprio instrumento, aprender a tocar (aulas, internet, revistas, livros), adquirir mais equipamentos para chegar a determinada sonoridade, horas de ensaio, cordas e palhetas ou baquetas (que devem ser substituidos com frequencia), horas de gravação, contratação de um produtor, prensagem de CDs, desenvolvimento de arte gráfica, sessão de fotos, confecção de website, hospedagem e registro do mesmo website, confecção de material promocional, etc. Vale lembrar que não falamos dos custos com transporte e telefonia, bem como de tempo e energia investidos no projeto.

Ou seja: aqui identificamos estúdios, lojas de instrumentos, professores, editoras, fábricas, transportadoras, produtores, técnicos de som, designers, webdesigners, gráficas, servidores de hospedagem, fotógrafos e outros profissionais sendo remunerados pela música, antes mesmo do lançamento do álbum de estréia de uma banda.

Lançado o material, divulgadores, produtores executivos, donos de casas noturnas, fotógrafos, técnicos de som, empresas de sonorização, iluminadores e roadies também serão remunerados, de acordo com o nível e disponibilidade da banda.

Nenhum dos profissionais supracitados trabalha de graça.

Exceto um.

O músico.

Justamente o músico, a peça fundamental de toda essa cadeia de produção, a mola mestra do mercado musical. Aquele que é a razão de ser da música. Sem ele, não há música, não há harmonia, nem melodia, nem ritmo. Não há nada. Mas existe, enraizada em nossa sociedade, a cultura de que músico não é profissão. De que músico é vagabundo. De que tudo é alegria e diversão, como se a vida fosse um moranguinho encantado. A própria história da formiga e da cigarra é preconceituosa ao extremo e é passada adiante de geração em geração.

Ou seja, a máquina existe e está ali: o mercado de música é subestimado e muitos estão vivendo (ou pelo menos sobrevivendo) dela, menos o músico.

O músico precisa negociar um cachê baixo ou porcentagem da portaria. O músico precisa pagar sua equipe. O músico precisa se virar. O músico precisa implorar por respeito. E, pra piorar o que já é crítico, quando diz “não” o músico recebe diversos adjetivos dentre os quais “arrogante” é o menos ofensivo.

O músico precisa ser valorizado, ter sua profissão reconhecida, livrar-se dos preconceitos e das instituições sanguessugas que regulamentam a atividade (outro entrave, desta vez legal, na atividade) para, então, deixar de ser o mendigo da música, aquele que implora não apenas por uma esmola, mas por dignidade frente a uma sociedade que não o respeita.

Não é possivel precisar quanto tempo uma transformação como essa demandaria.

Mas podemos começar, agora mesmo.

Alvaro Pereira Jr x Pablo Capilé – Música, Cultura, Grande Mídia e Independência

Rolou uma polêmica nervosa.

De um lado, um jornalista de um grande grupo: Alvaro Pereira Junior, da Folha de São Paulo. Do outro, o Circuito Fora do Eixo, grupo formado por artistas, produtores e articuladores culturais de todo o Brasil, representado pelo gestor Pablo Capilé.
Na semana passada, Alvaro cometeu a infelicidade de escrever um texto completamente obtuso a respeito da cena independente se São Paulo e do Brasil. Como quem com ferro fere, com ferro será ferido, Pablo Capilé envioucarta resposta ao jornalista, que foi prontamente publicada pela Folha.

(Acho importante que os interessados leiam os textos com atenção para que meu ponto de vista fique claro)

Pois bem.

O que tivemos através do Sr. Pereira foi uma clara demonstração de como a grande mídia, aquela tradicional, poderosa e milionária comandada por senhores que, como diria Johnny Cash, estão provavelmente bebendo café e fumando grandes charutos, encara a produção independente de música e cultura no Brasil. Para ela, o que não se converte em audiência, em vendas e em dinheiro não tem valor e merece um ataque que vise sua destruição, mesmo que isso signifique uma estupidez sem tamanho.

A produção dos artistas e profissionais do Fora do Eixo é algo que deveria ser exaltado e respeitado por qualquer profissional de imprensa. Um grupo de mais de cem coletivos que fazem artistas que não recebem espaço nessa mesma grande mídia da qual pessoas com esse tipo de postura fazem parte conseguem, através do circuito, rodar o país com baixo custo e, assim, divulgar seu trabalho pulverizando cultura onde jamais conseguiriam sem esse tipo de iniciativa.

Mas não.

Ao invés de escrever qualquer outra coisa menos nociva, Alvaro Pereira Junior preferiu atacar os artistas independentes, aqueles que são, exatamente, os que mais dependem. Ao invés de simplesmente não fazer o mal e deixá-los seguirem seus caminhos, não. Foi preciso escrever de forma obtusa e deselegante, desmerecendo o trabalho e caindo na simplificação burra de comparar o Fora do Eixo a um aglomerado de pessoas oportunistas e sem talento.

Ao invés de construir e contribuir para o crescimento, Alvaro preferiu a construção frasal destrutiva e sem embasamento algum. Palavras ao vento. Ignorância de quem não vive o que os artistas independentes do Brasil vivem e nem se deu ao trabalho de pesquisar para não falar bobagem.

Com todo o respeito que lhe é devido, ele deveria ter ficado quieto.

O apoio estatal ainda é uma forma de fomentar e produzir cultura nesse país. Não existe uma Ancine para a música. Não existe nem respeito para a música. Não existe nada. Só existe jornalista desinformado e corporativista que não apóia e trata com desdém. Isso tem de sobra. Esse é o motivo de os festivais pagarem hospedagem e alimentação para jornalistas em festivais: porque se não for assim eles simplesmente ficam escrevendo coluna idiota e não comparecem aos eventos.

Eu sou apenas um músico, produtor e jornalista inexpressivo se comparado a um jornalista da Folha. Minha opinião pesa muito menos que a do Sr. Pereira. Mas é preciso dizer que Pablo Capilé tomou a melhor das atitudes: responder à ignorância e à prepotência com clareza e informação.

Palmas pro Capilé. E que da próxima vez o Alvaro pense melhor antes de escrever besteira sobre um assunto que não domina.

Isso é muito, muito feio.

Banda + 3 milhões = Sucesso?

Uma porrada na cara de todo mundo que tem banda.

Inclusive na minha.

The Datsuns

Certa vez fui a um show do Black Drawing Chawks e o Victor (vocalista e guitarrista da banda) me indicou uma banda de rock: The Datsuns.

Formada na Nova Zelândia em 2000, o quarteto da cidade de Cambridge faz um Rock and Roll ligado em 220 mil volts. Uma das minhas bandas preferidas em atividade por sua postura e energia tanto nas gravações quanto no palco.

Como eu sou um cara de bom coração, compartilho com vocês aqui um show completo, de 2008. Destaque para o batera e sua camiseta do Hellacopters, aquela que os leitores do Era o Que Tinha já sabem que é a melhor banda do mundo.

Enjoy!

 
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Temporada de Greves

Estou em greve.

Aliás, muita gente está. Eu pensei bastante para escrever um texto sobre essa luta tão arriscada e corajosa que é fazer uma greve (e aqui me refiro a qualquer greve, não apenas dos bancários). No entanto, sei reconhecer quando alguém é muito mais genial que eu em algum aspecto e, por isso, apenas posto aqui a coluna do Juremir Machado no Correio do Povo desta sexta-feira.

Concordo em gênero, número e grau.

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Temporada de greves

Tem muita gente em greve. Todos com razão. Ninguém faz greve por amor a criar problemas para os outros, ainda que alguns mereçam. As greves surgem, como se diz no jargão das lutas, de necessidades imperiosas. Veja-se o caso da greve dos bancários. É mais do que justa. Só alguém muito reacionário pode condenar a greve dos bancários. Os ganhos dos bancos no Brasil são indecentes, obscenos, pornográficos. Banco é o melhor negócio do mundo. Todo mundo precisa ter uma conta bancária. Tudo passa pelos bancos. Os serviços são os mesmos em todos eles. Os bancos privados adoram se gabar das suas qualidades e fazer de conta que são mais ágeis, eficazes e modernos do que os públicos. É balela. Os caixas eletrônicos do Banco do Brasil são melhores, com interfaces mais amigáveis do que os de todos os bancos privados brasileiros. Banco do Brasil dá mais do que chuchu na cerca. Tem em toda esquina. Só dá o amarelão.

Banco no Brasil ganha muito e paga pouco. Os bancários pedem 5% de aumento real. Os patrões oferecem 0,56%. Por que tanto? Será que não vai faltar para esses pobres banqueiros pressionados por bancários sedentos de dinheiro? Que latinha a desses leitões que passam a vida mamando deitados! O lucro dos bancos cresceu 20,11% no primeiro semestre deste ano, um avanço de R$ 4,3 bilhões em relação ao mesmo período de 2010. É mole? Pois eles não querem dividir o bolo. A vida de banqueiro é dura. Tem de sustentar mansões, coleções de arte, intermináveis viagens luxuosas, familiares ociosos, serviçais de todo tipo, fusões estratosféricas, patrocínios a obras culturais que não decolam e ainda viver sob a terrível tensão das altas frequentes e das raras baixas da taxa Selic. Dá pena. Um sufoco. Um pesadelo. Coitados. Um inferno na Terra. Deve ser por isso que eles são aliviados de certos impostos. Ou não sobreviveriam.

Em 2011, o Itaú já faturou R$ 7,1 bilhões, e o Santander, R$ 4,1 bilhões. Realmente fica difícil, com lucros tão modestos, pensar em transferir uma fatia do bolinho para os empregados. Os impiedosos bancários, além de tudo, querem aumento no vale-refeição. Esse pessoal só pensa em comer. Será que esses banqueiros não sabiam de tudo isso quando escolheram essa atividade insana? Se estão insatisfeitos com tantas reclamações e greves, como parece, por que não mudam de profissão? Será que ficam só por causa desses míseros bilhões faturados no mole a cada ano? É quase impossível ver uma greve injusta. A dos Correios, por exemplo, tem toda razão de ser. As manifestações de brigadianos, no Rio Grande do Sul, exprimem reivindicações justíssimas. Se os professores da rede estadual entrarem em greve, em busca do pagamento do piso fixado por lei nacional, estarão cobertos de razão.

Só tem um jeito de evitar os problemas criados por tantas greves: pagar melhor. Sabe-se que é muito difícil para um banqueiro separar-se do seu rico dinheirinho obtido com tanto sacrifício pessoal, mas não tem jeito, terão de cumprir essa meta. Com esforço e treinamento, eles conseguirão. É só uma questão de empenho e missão.

Respeito e Admiração pelo Fresno

Eu respeito muito o Fresno.

Tenho a maior admiração por aqueles caras. Não porque são uma das maiores bandas de Rock do Brasil, mas pela forma como conquistaram esse status.

Eu não conheço nenhum dos caras da banda. Nenhum deles é meu amigo ou sabe sequer meu nome. Portanto, não há nenhum fiapo de protecionismo ou nenhum tipo de camaradagem no que escrevo nestas linhas.

O Fresno existe há mais de 10 anos. Começou fazendo história no underground. Lançou seu primeiro disco na Croco (extinta casa de shows de Porto Alegre) tocando para pouco mais de 100 pessoas (131, se não me falha a memória). Conquistaram espaço através de seus shows e do boca-a-boca dos fãs, que levaram essa propaganda para a internet e fizeram do Fresno o primeiro grande sucesso do TramaVirtual. Ocupavam, com frequencia, a maioria das 10 posições entre as músicas mais ouvidas/baixadas através do portal.

Com tanto falatório em torno da banda, logo chamaram a atenção de uma grande gravadora e de lá nunca mais sairam, o que é merecido diante da trajetória que traçaram.

Agora, realmente me incomoda quando chamam os caras de “uma bandinha fabricada”. Eu sei que o Fresno já tocou em Esteio, em uma galeria, para cerca de 30 pessoas e que muitas das outras apresentações também foram para públicos reduzidos. Mas a banda não se intimidou e, principalmente, não desistiu.

Hoje, por uma coincidência, me deparei com um vídeo de uma entrevista do Tavares, baixista do Fresno. E essa entrevista só serviu para aumentar ainda mais o respeito e a admiração que eu já nutria pela banda.

Eu não tenho o hábito de ouvir Fresno (apesar de achar o “Revanche” um álbum muito bom), mas acho que o camarada tem que ser muito xiita e sectário para não gostar desses caras.

Mesmo que secretamente.