Causas

Eu nunca tive uma causa.

Nunca militei por nada. Não por julgar que não exista nada que mereça o meu empenho, pelo contrário. Mas porque existem diversos aspectos que envolvem o “ter uma causa” que acabaram por me fazer nunca entrar de cabeça nisso. O que tenho mais perto de uma causa, pelo fato de ser presente em minha vida sem perspectiva alguma de deixá-la é o Rock and Roll.

Ter uma causa é algo que não me agrada, e o motivo é simples: as pessoas que tem uma causa. Elas, via de regra, acabam por dar à sua causa uma importância maior do que de fato ela tem e também atribuem à sua própria contribuição um valor MUITO maior do que ela de fato representa. E isso cansa.

Vou exemplificar com algumas coisas que observo com freqüência.

Hoje em dia vivemos a ditadura do politicamente correto. Tudo é feio, tudo é errado, tudo é horrível e se você tem algum tipo de preconceito você é uma pessoa péssima. Pois bem, a minha opinião sobre isso é clara: irrita demais e não faz sentido. Todos temos preconceitos e isso é um fato. Ninguém é livre deles. Ninguém está em um plano tão elevado a ponto de não ter preconceito algum. O meu, é fácil. Já citei outras vezes aqui que tenho preconceito contra o vegetarianismo/veganismo. Também tenho um certo preconceito com pessoas que se dizem de direita. E o resto do mundo tem seus preconceitos, seja contra o que for.

O problema é que hoje, quem tem uma causa, não tolera uma coisa que é a base da humanidade: DIFERENÇAS.

Eu tenho amigos vegetarianos. Eu tenho amigos de direita. Eu ouço os argumentos deles, eu entendo o que eles pensam e eu não deixo que o meu preconceito me torne um idiota, bem como eu não acho eles idiotas por causa das suas convicções, pois, para mim, isso não é uma causa.

Agora, muitas pessoas que tem o Veganismo/Vegetarianismo como causa, acabam por tratar o carnívoro como um assassino, cruel, desalmado e, principalmente: BURRO. Quem tem uma causa também tem essa péssima mania: demonstrar com palavras e atitudes que quem não compartilha da mesma opinião é uma pessoa com capacidade intelectual muito inferior. E isso, vale reiterar, irrita muito.

E não é privilégio do Veganismo. Só falei dos mais radicais deles por conta se esse ser o MEU preconceito. Mas posso citar que as pessoas não entendem que quem apóia o Movimento Sem Terra não é um arruaceiro anarquista, bem como quem condena não é um capitalista selvagem.  As pessoas não entendem que quem não apóia a adoção para casais homossexuais pode não ser homofóbico, bem como quem é a favor não é uma pessoa sem valores morais. As pessoas não entendem que quem é contra a marcha da maconha não é um caretão reacionário e acéfalo, bem como quem é a favor não é necessariamente um doidão reacionário e acéfalo. E são apenas alguns exemplos…

Outro exemplo clássico (e meu preferido) de pessoas que defendem causas e se deixam levar mais pela emoção do que qualquer outra coisa: Crentes X Ateus. Esse ilustra muito bem o que quero exemplificar com esse texto. Os crentes julgam os ateus pessoas péssimas, sem amor no coração, arrogantes e, em casos extremos, dominados por Satanás. Já os ateus julgam os crentes burros, ignorantes, preconceituosos e idiotas que se deixam enganar por uma mentira histórica escrita em um livro.

Detalhe: nenhum dos dois lados sabe com certeza se Deus existe ou não. Mas são mais firmes que chumbo nos seus discursos.

Agora respondam: o que é isso? Uma causa vale esse tipo de atitude?

Observo que hoje é preciso ter cuidado até mesmo na hora de ser irônico ou sarcástico. Esse tipo de padrão de conduta correta está gerando uma espécie de policiamento ostensivo na hora de fazer piada.  Quem tem uma causa “isso não tem graça” é o novo “sou mais evoluído que você e seu humor preconceituoso”.

As pessoas não entendem que as pessoas podem ter (e sempre terão) opiniões diferentes sobre variados assuntos, e que uma opinião diferente não faz de ninguém um ser humano pior. O que não pode faltar é respeito. E isso, muitas vezes, falta em quem tem uma causa e a defende de forma tão fervorosa.

Nenhuma espécie de sectarismo é boa. O que é bom para todos é o diálogo e a troca de informação.

A velha máxima de que “somos todos iguais”, além de ser uma besteira, gera esse tipo de desconforto ou até mesmo de situação indigesta quando nos deparamos com o que não está dentro dos NOSSOS padrões.

E isso é assim com todo mundo.

Inclusive você e eu.

PS: Antes que alguém pergunte nos comentários “Marcel, tu não tem uma causa?”, eu respondo: tenho. A minha causa é a honestidade/bondade. Mas eu não fico tentando doutrinar cada pessoa má ou desonesta ou filha da puta que eu encontro na minha frente, primeiro pelo fato de que essa é a MINHA causa, e não deles. Segundo porque… é… não daria tempo! 😉

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2 responses to this post.

  1. Faço cada palavra deste post como se fosse minha.
    é exatamente por aí o caminho!

    Responder

  2. Posted by Roger on 27 de junho de 2011 at 12:42

    Esse foi um post que me fez refletir bastante, pois ja vinha pensando sobre isso faz um tempo. Pois eu sei quais são meus preconceitos, e tem vezes que fico em dúvida se são preconceitos mesmo, ou puramente falta de conhecimento sobreo assunto.
    Assim como tu, tenho como “causa” o Rock. Mas acredito que todos que possuam uma causa, por mais “polêmica” que ela possa ser, não pode ter como base um fanatismo, pois o fanatismo cega o ser humano, e é aí que temos muitos conflitos.

    Na real somos animais que não sabemos como lidar com a opinião, quando ela é oposta a nossa. E acabamos por usar todas nossas armas de defesa para contrariar.

    Abração!

    Responder

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