Fãs, Fanatismo e Postura Jornalística

Eu sempre fui fã de música.

São mais de 20 anos ouvindo música todo dia e me definindo como tal. No entanto, os últimos dias tem me feito pensar sobre essa definição com bastante intensidade.

Para quem não sabe, a palavra “fã” vem do inglês “fan”, uma abreviatura para “fanatic”. E, todos sabemos, fanatismo nunca é uma coisa boa. Na música, não é diferente: existem muitos fãs xiitas, aqueles que tem uma devoção irracional pelos seus ídolos, algo que beira o perigoso e ridículo fanatismo religioso.

Tradicionalmente, fala-se muito, nesse sentido, dos fãs do Iron Maiden. Fãs de Legião Urbana, Raul Seixas e Rage Against the Machine também são bastante lembrados quando o assunto é este. Também é comum rotular o Heavy Metal em geral como esse tipo de fã. E eu, particularmente, gosto de fazer piada com os fãs de Black Metal (mas apenas aqueles que se vestem de couro preto dos pés à cabeça sob um calor de 40 graus).

No entanto, para minha surpresa, encontrei esse tipo de coisa onde jamais esperava: em fãs da Cindy Lauper.

Eu explico. Quem acompanha esse blog sabe que escrevo resenhas de show para o POA Show. Durante minha carreira como jornalista, já vi muitos shows bons e alguns bem horríveis. Já vi muita coisa mediana também. Já vi todo tipo de atitude no palco, da simpatia do Deep Purple até o estrelismo superestimado de Axl Rose. Da chatice sem noção de Fat Mike até a humildade cativante de Paul McCartney. Da divertida simplicidade do Toy Dolls até a impressionante e grandiosa sofisticação do Black Eyed Peas. Enfim, foram mais de 120 shows resenhados em seis anos (dois no POA Show e 4 no RockBox).

Já levei muita porrada nesse tempo. Já encarei a fúria dos metaleiros quando chamei Tim Ripper Owens de arrogante. Já tive que descrever o show do Misfits, a contragosto, como horrível (porque, de fato, foi péssimo). Já fui xingado de canalha porque, pasmem, elogiei menos o show de Rita Lee do que o show dos Mutantes. Ser xingado é algo a que todo jornalista musical está sujeito.

Agora, o que aconteceu na última semana foi o supra-sumo do bizarro em termos de jornalismo na internet.

Resenhei o show da Cindy Lauper, uma cantora por quem sempre tive uma certa simpatia, apesar de não ser um grande admirador de seu trabalho. Recentemente Cindy lançou o álbum “Memphis Blues”, um bom disco de blues onde conta com uma banda excelente e soube encaixar muito bem sua voz. O show, naturalmente, servia para divulgação do álbum e seguia a mesma linha.

Resumindo, o que escrevi de mais importante na resenha foi o seguinte:

1 – O show foi muito mais um show de Blues, mas o público não digeriu isso bem, visto que muitos desavisados não compreenderam bem o que estava acontecendo.

2 – Cindy Lauper foi muito grosseira ao expulsar os fotógrafos uma música antes do combinado (o incidente ocorreu no final da 2a música). Principalmente pela forma como fez.

3 – A banda é espetacular e a voz de Cindy idem.

Pois bem. Eu mexi com uma entidade sagrada para os fãs. Como eu pude falar mal de Cindy Lauper?

Falei por um único motivo: eu não sou um jornalista água-com-açúcar. A minha função é contar o que aconteceu no show de forma fiel e detalhada. Não estou lá para escrever uma nota genérica e sem conteúdo que vá agradar a todos. Para isso nem é preciso ir ao show. Agora, Cindy foi, sim, uma grossa. A banda se perdeu nas canções mais pop sim. A maioria do público reagiu de maneira morna ao blues de Cindy Lauper sim.

E, o que muitos nem imaginam: Eu prefiro blues ao trabalho pop de Cindy. Mas não estou lá para dizer o que eu gosto ou não. Estou lá para reportar o show. Ponto final.

Dos comentários que surgiram no site me chamou mais a atenção o último, que chamou meu texto de “crítica PODRE”. O autor é o presidente de um fan club da Cindy Lauper no Brasil.

Foi aí que eu me preocupei, porque fãs xiitas todo artista pode ter. Agora, ter o fan club presidido por um deles, realmente me surpreende. Escreveu um comentário totalmente revoltado, como se eu tivesse resenhado negativamente o show (coisa que não aconteceu) e ainda deixou os dados do Fan Club na identificação.

Acho preocupante esse tipo de fanatismo. Eu sou um dos maiores fãs dos Hellacopters, mas saberia aceitar uma apresentação ruim da banda. Não há mal nenhum nisso. Agora, esse tipo de adoração, que endeusa um artista mesmo quando ele tem uma atitude ridícula e sem sentido, faz com que eu pense que não, eu não sou fã de ninguém.

Isso não é saudável.

A conclusão que tiro dos chiliques que os fãs da Cindy Lauper deram no site só porque a resenha não atendeu às suas expectativas é uma só: Parece que o Iron Maiden perdeu seu posto.

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One response to this post.

  1. Wowwww!!! Achei super interessante o que você escreveu!
    Me irrita muito ver o fanatismo das pessoas por artistas… Me irrita o fato das pessoas perderam parte da vida adorando algumas pessoas de forma incondicional, tratando elas como se fossem algum tipo de Deus… Alguns fãs não entendem que qualquer artista é “gente como a gente”, a diferença é que eles trabalham com o talento de uma maneira mais exposta do que as pessoas que trabalham com seus talentos em uma indústria, banco, comércio, escola, hospital, etc… Somos todos iguais.

    Responder

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