Imprensa, Maria Rita Kehl, Coerência e Descrença

Hoje fiquei sabendo de mais uma atitude do Estadão que muito me decepcionou. A repressão à colunista Maria Rita Kehl. Maria Rita escreve escreVIA para o Estadão sobre política. Dias depois de o próprio jornal declarar apoio ao candidato José Serra, Maria Rita escreveu uma coluna dando sua opinião sobre o assunto.

Isso causou desconforto lá.

Segundo o jornalista Xico Sá, no Twitter,  “o Estadão não demitiu Maria Rita Kehl, mas exige que ela não escreva mais sobre política. Só psicanálise”. PORRA!

Onde estamos?

Que porra de repressão é essa?

Como empresa privada que é, o Estadão tem legalmente todo o direito de definir quem escreve sobre o que. Agora, moralmente, a atitude de “remover gentilmente” qualquer posicionamento dissonante prova duas coisas: arbitrariedade, visto que até ontem Kehl servia para escrever sobre política, e NÍTIDA PRÁTICA DE CENSURA.

A imprensa censurando. Uma atitude que não se espera em um país que tanto lutou pela liberdade de imprensa. É o estabelecimento total e irrestrito da incoerência.

O Estadão, que se diz “Há 433 dias sob censura”, por conta da decisão judicial que o impede de citar o caso Fernando Sarney, agora CENSURA uma jornalista. É o sujo falando do mal lavado. Tem 100 anos de perdão.

É a mesma coisa que encontrar um rabino neo-nazista.

Por essas e por outras é que aumenta, a cada dia, minha descrença por esse país.

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Para que as pessoas possam saber do que estou falando com mais clareza, segue abaixo o texto da Maria Rita.

“Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas. O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presidência da República. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém. Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.

Se o povão das chamadas classes D e E – os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil – tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.

Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por “uma prima” do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.

Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da “esmolinha” é político e revela consciência de classe recém-adquirida.

O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de “acumulação primitiva de democracia”.

Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.

Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.”



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4 responses to this post.

  1. Posted by Jonas on 7 de outubro de 2010 at 22:55

    Por isso que eu leio só a ZH. Totalmente imparcial e prega a pluralidade. Principalmente na parte que trata de espotes…hehehe

    Responder

  2. Assédio Moral, com o próprio jornal como prova.

    Responder

  3. Posted by Luiz Young on 7 de outubro de 2010 at 3:40

    Fala sério, Marcel!

    O jornal tem uma linha editorial bem clara, que chegou a manifestar durante as eleições. Ela é empregada e faz algo contrário ao que o jornal prega. Queria o que, flores?

    Seria a mesma coisa se na bosta da Carta Capital alguém escrevesse falando mal do Lula e do PT. Nem chegaria a ser demitido, pq de início já não poderia trabalhar lá, independente de ser capaz ou não.

    Responder

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