Diálogo Utópico em uma Cena Musical Perfeita

O diálogo a seguir se dá na cidade fictícia de Zorto Alegre, em um ano desconhecido e em uma cena musical perfeita, onde todos conhecem bem seus valores e qualidades.

– Olá. Vim por causa do anuncio procurando banda.

– Ah, sim… sente-se. Inauguramos no próximo sábado e preciso de uma banda. Sou novo na cidade, cheguei há dois meses de Zão Paulo. Conhece a proposta da casa?

– Não. Mas é Rock, não é?

-É… Pop Rock…

– Hum…

– Precisamos de uma banda para este sábado. Vocês fazem cover de que?

– Não fazemos covers.

– Como assim?

– Só trabalho autoral.

– Isso eu entendi, mas como querem tocar em um bar no sábado a noite sem covers?

– Apresentando nossas músicas. Acredite, são ótimas.

– Mas preciso de uma banda que conheça o som que a galera curte.

– É, vai ser difícil em Zorto Alegre.

– Como assim?

– Aqui temos uma cena autoral muito forte. Esse negócio de banda cover não existe mais.

– Hahahahaha… Muito boa. Brincalhão… Não fazem cover mesmo?

– Não. Ninguém mais faz.

– Como assim, porra? Onde foram parar as bandas cover?

– Olha, pelo que sei as poucas que restaram estão na Argentina e na Austrália. Mas são casos atípicos. As bandas originais já acabaram e eles conseguiram aprovação dos sobreviventes dessas bandas. Eles vem a Zorto Alegre às vezes.

– Não posso contratar gente da Austrália. Tenho um bar em Zorto Alegre e preciso de uma banda para sábado.

– Temos ótimas bandas autorais aqui.

– Ninguém quer ouvir banda que ninguém conhece!

– Olha… não era o que pensavam os fãs de AC/DC, Black Sabbath, Chuck Berry, Deep Purple, Evergrey, Foo Fighters, Guns ‘n’ Roses, Hellacopters, Jimi Hendrix, Kiss, Led Zeppelin, Metallica, Nirvana, Oasis, Pearl Jam, Ramones, Soundgarden, Thin Lizzy,u2,  Van Halen, Whitesnake, X-Racer e ZZ Top, só pra citar um alfabeto inteiro. Até os Beatles já foram pequenos um dia.

– Mas isso não quer dizer que sua banda vá se tornar um sucesso.

– Nem que ela seja ruim. Isso você só vai saber ouvindo.

– Ok, quero ouvir então!

– Está aqui. Lacrado. Dez reais.

– Como assim?

– O álbum custa dez reais.

– Você quer que eu pague para ouvir o material da sua banda?

– Não. Quero que pague, ainda que um valor simbólico, pelo trabalho da banda. Foram meses de ensaios, composições, arranjos e todo um processo de gravação que envolveu vários profissionais, além do valor agregado. A vida de algumas pessoas está depositada aí. Dez reais é um valor infame perto do que representa. Mas ouvir é de graça, pode fazer quantas vezes quiser.

– Hum… puta que pariu..

– Posso tomar uma dose de whisky do seu bar de graça, pra ver se é bom?

– Claro que não.

– Entendeu?

– Entendi. Tem sorte que estou de bom humor. Toma aqui seus dez reais.

– Mas e aí, é Pop Rock?

– Isso é outro detalhe. Pop Rock, assim como as bandas cover, também não existe mais. Era um Frankstein que só gerava bandas medíocres. Mas temos ótimas bandas pop e excelentes bandas de Rock.

– E como os bares sobrevivem aqui, posso saber?

– Não apenas sobrevivem como vivem muito bem. Temos uma cena autoral consolidada. As bandas se levam a sério, ralam mesmo. O público não é bobo, sabe que se não apoiar as bandas novas nada de bom vai surgir. Essa consciência do público fortalece a cena, visto que eles comparecem aos shows. As bandas, por sua vez, se organizam e se ajudam, ao invés de se sabotar. Não é uma competição, e sim uma união de forças. Ah, já aviso: não tocam por migalha também.

– Como assim?

– A música é um trabalho. Certo?

– Certo.

– É o melhor trabalho do mundo, mas é um trabalho. Correto?

– Correto.

– Como qualquer trabalho, existe uma categoria. Somos uma classe de trabalhadores que se apóia e se valoriza. Como se fosse um sindicato, só que regido pelo bom senso ao invés de uma legislação.

– Ai, meu Deus… onde é que eu vim parar? Tá, esse não tocar por migalhas é quanto por cento?

– Que por cento?

– Quanto por cento da portaria, oras…

– Posso comprar 60% de uma cerveja e 40% de um sanduiche no seu bar?

– Claro que não!!!

– Então… cachê fechado. É assim que funciona. Nosso produto é o show e ele tem um preço.

– Vou falir.

– Não vai.

– Claro que vou.

– Não. Fortalecendo a cena, fortalece a casa, fortalece a cervejada da galera e fortalece a rentabilidade do seu negócio. Se chama cadeia produtiva.

– Só por curiosidade mórbida: quanto é?

– 100 dólares.

– Até que não é muito.

– Por músico, claro.

– Por Músico????

– Você pode pagar apenas um garçon?

– Claro que não!!!!

– Então. Somos quatro, quatrocentos dólares.

– Mas são 700 reais!

– Se cobrar um couvert de 7 reais são 100 pessoas, não é o fim do mundo.

– Claro que é… eu tinha bandas cover versáteis até demais que tocavam o que eu pedia tocando por 40% da portaria e agora tenho que pagar setecentos reais para uma banda com repertório desconhecido?

– Não tem.

– Como não?

– Pode inaugurar sem banda. Mas já te aviso: som mecânico não existe em Zorto Alegre há pelo menos 4 anos.

– Claro. Não existem DJs na cidade?

– Existia, mas foram todos para Zão Paulo.

– Olha aqui, moleque audacioso do caralho, você deve estar pensando que eu sou um forasteiro idiota que pode enrolar com esse papo ridículo de cena fortalecida e público consciente, mas eu não sou. Eu sou um empresário da noite. Eu sei do que as pessoas gostam. Vá embora do meu bar.

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3 dias depois… Toca o telefone.

– Alô. Aqui é o Zick, do bar. Desculpe pelo moleque audacioso do caralho. Vocês ainda estão com o sábado livre?

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2 responses to this post.

  1. Posted by Roger on 10 de setembro de 2010 at 10:57

    Quem sabe um dia, em 3042….hhahahah
    Mas seria ótimo se fosse assim!!

    Abrass

    Responder

  2. Agora sou eu quem escrevo: GE-NI-AL.

    Utopia nunca é demais. Eu idealizo também.

    Responder

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