
Tá ruim pra todo mundo, não tá fácil pra ninguém…
O chavão se aplica perfeitamente aos dias atuais quando o assunto é música, principalmente no que se refere àquilo que foi, um dia, uma das indústrias que mais movimentava dinheiro no mundo. Tudo minguou, não existem mais listas de novos artistas em cada uma das majors, nem tampouco orçamentos polpudos para gravação, produção e divulgação de um álbum. As poucas bandas que mantem um status semelhante são, em sua maioria, artistas com décadas de carreira, aqueles que por oferecer como garantia sua trajetória longa, sólida e bem sucedida, justificam um investimento um pouco maior da organização.
O mercado mudou, e isso é óbvio. A internet democratizou, também é uma frase batida. No entanto, há alguns aspectos que as bandas independentes (independentes só no nome, pois são as que mais dependem) ainda não se permitiram ou tiveram coragem de encarar.
Primeiramente, a democracia da internet é extremamente relativa. Todos tem chances iguais, ok. Mas todos tem UMA e APENAS UMA chance. São aqueles, quando muito, 60 segundos que farão a pessoa continuar ouvindo ou clicar no X e fechar a página na cara da banda. A solução para isso envolve muitas coisas, mas ter boas composições é o principal. Munida dessas boas canções, a banda precisa ensaiar com afinco e ter uma gravação excelente. Um bom estúdio com um bom engenheiro de som e um bom produtor musical deixaram de ser luxo. Passaram a ser item básico de sobrevivência no selvagem mercado (?) musical do século XXI. Infelizmente ainda existem bandas que pagam caro pelo que lhes parece mais barato. Caro é as pessoas não ouvirem o trabalho nunca mais. Isso é caro.
Também ainda não conseguimos nos livrar da cultura do Rockstar. Não existe a consciência de que, estatisticamente, a chance de uma banda brasileira atingir o estrelato é de 0,0000000002% ou menos. Existem mais de UM MILHÃO de bandas no Myspace. Faça as contas. Trabalho duro e talento vão aumentar suas chances, mas a sorte ainda tem um papel importante. O cara certo precisa ouvir o seu trabalho no momento certo e isso é bem difícil de acontecer. Portanto, escolha bem para quem mandar o seu som e não saia fazendo Spam em rede social. Dificilmente alguém vai ouvir.
Por último, e não menos importante: União e humildade.
Muitas bandas hoje acham que estão em um patamar superior porque tocaram meia dúzia de vezes no rádio ou porque conseguiram uma nota em um jornal de grande circulação. E DAÍ? O que adianta ter 2 milhões de leitores/espectadores e 23 pessoas no show? Não muito, não é mesmo?
Algumas cidades conseguem (e aí posso citar o exemplo do que acontece em Esteio) algo que retroalimenta a cena e produz frutos muito benéficos para a música local: bandas de diferentes estilos se conhecem, se apóiam, se divulgam e, principalmente, se respeitam. Formou-se a consciência de que todos juntos constroem mais do que cada um por sí e Deus por todos.
Hoje posso afirmar que existem dois patamares de banda: aquelas que se profissionalizaram, ou seja, vivem da sua música e conseguem rentabilizar sua arte a ponto de fazer dela profissão e aquelas que, por algum motivo, não conseguem isso. Como a imensa maioria das bandas do mundo está na segunda facção, não é errado afirmar que não existe justificativa para qualquer tipo de competição, rivalidade, ranço, arrogância, prepotência ou qualquer variável das palavras já citadas entre bandas que, acima de tudo, são pequenas, estão todos no mesmo patamar de banda pequena e, por isso, precisam de todo e qualquer apoio que puderem receber.
Estrelismo é para estrela, não para músico.
Enfim, a música é um caminho tortuoso, acidentado e longo. E para percorrê-lo, a gentileza abre mais portas que a arrogância. Existem diversos problemas que assolam a vida de quem faz, produz ou simplesmente lida com música no Brasil. Diversos deles são fatores sistêmicos, alheios à nossa vontade. Agora, terrível mesmo é quando as próprias bandas são o problema.
Cabe a nós, e somente a nós, a reflexão e o empenho para consertar isso.