Músico: o mendigo da Música

Músico é o mendigo da música.

Essa frase tão contundente vem sendo repetida com certa frequência por mim, que apesar de exercer diversas funções nessa vida, me considero, acima e antes de tudo, um músico (ainda que não pague minhas contas através dessa atividade). O motivo de tanta revolta(?) é um só: a verdade que a acidez desta frase representa.

A música é, disparadamente, a forma de arte que mais atrai as pessoas, que mais adeptos conquista e que mais artistas possui. Para cada cem músicos existem muito menos escritores, pintores, cineastas, dançarinos, atores e outros tipos de gente que se expressa e tenta viver através de sua arte. Estamos falando, então, de um mercado inchado, com muitos profissionais (ou nem tão profissionais assim) à disposição. As vendas de encordoamentos de guitarra superam, esmagadoramente, a venda de pincéis. Falo isso sem dados estatísticos que me salvaguardem, mas também sem nenhum medo de errar.

A música é, também, a forma de arte com maior apelo popular. Muito mais pessoas ouvem música do que vão à exposições ou a salas de cinema, menos ainda a saraus ou espetáculos de ballet. Existem muito mais consumidores de música do que de outras formas de expressão artística.

Pois bem.

Essa música que as pessoas consomem não é de graça. Pode até não ter custo para o consumidor, mas ela não surgiu sem que dinheiro fosse investido. Existe uma cadeia produtiva que envolve diversos profissionais e que sustenta o mercado de música.

Vamos fazer um breve levantamento de tudo que envolve a atividade de um músico:

Comprar o próprio instrumento, aprender a tocar (aulas, internet, revistas, livros), adquirir mais equipamentos para chegar a determinada sonoridade, horas de ensaio, cordas e palhetas ou baquetas (que devem ser substituidos com frequencia), horas de gravação, contratação de um produtor, prensagem de CDs, desenvolvimento de arte gráfica, sessão de fotos, confecção de website, hospedagem e registro do mesmo website, confecção de material promocional, etc. Vale lembrar que não falamos dos custos com transporte e telefonia, bem como de tempo e energia investidos no projeto.

Ou seja: aqui identificamos estúdios, lojas de instrumentos, professores, editoras, fábricas, transportadoras, produtores, técnicos de som, designers, webdesigners, gráficas, servidores de hospedagem, fotógrafos e outros profissionais sendo remunerados pela música, antes mesmo do lançamento do álbum de estréia de uma banda.

Lançado o material, divulgadores, produtores executivos, donos de casas noturnas, fotógrafos, técnicos de som, empresas de sonorização, iluminadores e roadies também serão remunerados, de acordo com o nível e disponibilidade da banda.

Nenhum dos profissionais supracitados trabalha de graça.

Exceto um.

O músico.

Justamente o músico, a peça fundamental de toda essa cadeia de produção, a mola mestra do mercado musical. Aquele que é a razão de ser da música. Sem ele, não há música, não há harmonia, nem melodia, nem ritmo. Não há nada. Mas existe, enraizada em nossa sociedade, a cultura de que músico não é profissão. De que músico é vagabundo. De que tudo é alegria e diversão, como se a vida fosse um moranguinho encantado. A própria história da formiga e da cigarra é preconceituosa ao extremo e é passada adiante de geração em geração.

Ou seja, a máquina existe e está ali: o mercado de música é subestimado e muitos estão vivendo (ou pelo menos sobrevivendo) dela, menos o músico.

O músico precisa negociar um cachê baixo ou porcentagem da portaria. O músico precisa pagar sua equipe. O músico precisa se virar. O músico precisa implorar por respeito. E, pra piorar o que já é crítico, quando diz “não” o músico recebe diversos adjetivos dentre os quais “arrogante” é o menos ofensivo.

O músico precisa ser valorizado, ter sua profissão reconhecida, livrar-se dos preconceitos e das instituições sanguessugas que regulamentam a atividade (outro entrave, desta vez legal, na atividade) para, então, deixar de ser o mendigo da música, aquele que implora não apenas por uma esmola, mas por dignidade frente a uma sociedade que não o respeita.

Não é possivel precisar quanto tempo uma transformação como essa demandaria.

Mas podemos começar, agora mesmo.

Uma resposta para este post.

  1. Pra ser sincero, qualquer pessoa que consiga fazer uma musica de qualidade, tipo aquelas musicas que entram nos nossos ouvidos e nos cativam logo de primeira, como se fosse uma música do Elton John, pode ter ctz o sucesso ta garantido. Acho que nao basta somente tocar bem ou cantar bem, mas além do mais é preciso saber fazer música boa que cative as pessoas.

    Responder

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.